Qual a importância e o significado de Jesus ter sido chamado "Filho de Davi"?, por ASSOCIAÇÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA ESPÍRITA GABRIEL DELANNE
Em diversas citações dos Evangelhos canônicos, Jesus foi denominado como “Filho de Davi”: no clamor dos cegos: “Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, quando ouviram falar que Jesus estava passando, puseram-se a gritar: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!” (Mateus, 20:30-31); no episódio da mulher cananeia: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada”. (Mateus, 15:22); após curar cegos e coxos no Templo de Jerusalém, as crianças clamaram: “Hosana ao Filho de Davi!” (Mateus, 21:15) – ocasião em que Jesus não contestou tal designação, confirmando implicitamente a sua identidade messiânica; no clamor popular ao curar um cego e um mudo – “Todas as turbas ficaram extasiadas e diziam: acaso não é este o filho de Davi?” (Mateus, 12:23), e na entrada triunfal em Jerusalém: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mateus, 21:9).
O motivo de Jesus receber esse título estava ligado à tradição judaica, referente às profecias sobre a vinda do Messias. Segundo a Torá (Antigo Testamento), Deus prometeu a Davi que um de seus descendentes teria um reino eterno (2 Samuel, 7:12–16). Ele foi um dos maiores reis de Israel (1040– 970 a.C.). Os judeus esperavam que o Messias (o Salvador prometido) viesse da sua linhagem. Os profetas, que se seguiram, reforçaram essa ideia (Isaías, 11: 1–16; Jeremias, 23:5-8), o que levou os judeus, em princípio, a identificar Jesus como o Messias. Devido a essa crença, os evangelistas Mateus (1:1-17) e Lucas (3:23-38), traçaram a sua genealogia mostrando que ele era da família de Davi, cumprindo, assim, essa expectativa.
Segundo o costume judaico, quem confere a linhagem tribal e genealógica ao filho é o pai, podendo ser concluído que José foi o pai biológico de Jesus. Contudo, os teólogos da Igreja Católica Romana, formularam o dogma da Trindade, no qual Jesus teria sido concebido pelo Espírito Santo por meio de um nascimento virginal – uma negação da paternidade de José. Caso isso fosse verdade, Jesus não teria cumprido o requisito genealógico, invalidando as suas próprias afirmativas e as descrições dos evangelistas Lucas e Mateus. Mesmo que, posteriormente, os teólogos tentassem corrigir ou reinterpretar esse ponto, argumentando que Maria de Nazaré também seria descendente de Davi, isso não resolveria a questão, visto que no judaísmo essa linhagem não é transmitida pela mãe.
Esse dogma da Trindade (um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo) foi uma medida para justificar a natureza divina de Jesus e apaziguar as divergências doutrinárias existentes nos primeiros séculos do Cristianismo, sobre a divindade do Cristo. O Espiritismo não aceita a Trindade, visto que Deus é único, indivisível e imaterial – não podendo ser concebido como dividido em pessoas distintas. Em consonância com esse conceito, o Judaísmo e o Islamismo também refutam essa tese. A linhagem biológica pertence ao corpo físico, sendo que José foi o pai biológico de Jesus. Como a identidade real pertence ao Espírito imortal, a denominação “Filho de Davi” dizia respeito à sua encarnação, e não à sua essência espiritual. Ele não foi apenas um profeta ou reformador moral, mas um Espírito puro, o mais elevado que já esteve na Terra e, segundo Allan Kardec (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, item 3), o “guia e modelo” para a Humanidade. Como governador espiritual do planeta, a sua autoridade não deriva de linhagem humana, mas de sua perfeição moral e evolução espiritual, adquirida ao longo de sua trajetória evolutiva. Inclusive, mesmo em Jerusalém, essa superioridade moral foi evidenciada durante uma manifestação mediúnica no Templo, quando o Espírito Davi se manifestou, repetindo uma citação de sua autoria (Salmo, 110:1), chamando-o de Senhor (Marcos, 12:35-37), demonstrando a ascendência e autoridade espiritual de Jesus.
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